Sagrado e profano

Quanto mais se esgarçam os princípios da moral e da ética, na humanidade, em geral, mais se percebe a busca pela espiritualidade. A religião considerada, pelo velho Marx, numa visão anestesiadora da consciência, como o ópio do povo, vai se atualizando e tentando ir ao encontro da necessidade do homem, que não consegue mais dar conta de vivenciar a realidade próxima ou distante.

Para o judaísmo, religioso é ter lar judaico. Sagrado é cumprir as mitzvot.  A vida religiosa não se encerra na sinagoga, mas no dia a dia do sujeito, que exercendo o livre arbítrio, tenta aperfeiçoar o mundo.

Na mídia, os gestos e os discursos transmitidos para a massa de espectadores, especialmente no domínio dos esportes, evidenciam a tendência de uma religiosidade mais evidente. Antigamente, no futebol brasileiro, o máximo que se observava era o jogador entrando no gramado fazendo o sinal da cruz e tocando na grama, como se pisasse um solo sagrado.

Hoje, o que as câmeras transmitem é todo um ritual de orações individuais ou coletivas do time. Os goleiros fazem um show à parte, demonstrando, de forma um tanto quanto espalhafatosa, toda a sua fé. Os artilheiros agradecem primeiro a Deus, para depois se lembrarem dos mortais, que apoiaram o seu feito.

Seguindo esse mesmo movimento, as redes de TV descobriram que o filão dos temas bíblicos, que é inesgotável, lhes rende uma audiência cativa, que prefere assistir histórias dos tempos antigos, repletas do profano, em vez de tramas imaginadas pelos novelistas de hoje, também nada recomendáveis. Falando nisso, como não se admirar que uma facção criminosa, aqui do Rio, adotou a figura de uma mocinha da novela das nove, para embalar a sua mercadoria.

Falando em embalagem, como se enrola o eleitor, nos dias de hoje, misturando-se religião e política, chegando a se constituir no nosso congresso uma bancada, que tem voz ativa nas decisões parlamentares, que envolvem o destino do país.

Aliás, é bom se assinalar, que essa promiscuidade, levada ao extremo, já derrubou nações independentes, fragmentando e sacrificando milhões de seres humanos, em guerras fratricidas principalmente no Oriente Médio e na África. A história da Idade Média, com os seus tribunais da inquisição, também corrobora quão explosiva e danosa pode ser a mistura Estado e religião. Nada mais profano.

Por outro lado, nesse nosso tempo, em que se precisa aprender a viver num mundo ambivalente e ambíguo, destacam-se personalidades do campo das ciências, que buscam, através de estudos e experiências pessoais no mundo do sagrado, o equilíbrio para as suas inquietudes, independentes de sua profissão de fé.

De repente, ficamos surpreendidos com a convivência harmônica entre o racional e o espiritual  na  solução de problemas humanos, tão acostumados ficamos em dividir e classificar os nossos atos, esquecendo de que a complexidade da vida nos impõe opções, que vão moldando o nosso modo de ser e de conviver com o outro.

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