Sangria

Sangra o Rio de Janeiro, sangra o país, sangra o mundo. O tempora! O mores! Ó tempos! Ó costumes! Temos nosso Nero; sim, o homem que ameaça incendiar o país está entre nós, mas sendo julgado. O tempora! O mores!

A gravação que penalizou um senador é a mesma que livra o outro de seu delito, ou mesmo o presidente, a Corte de Justiça que ora soa como um trovão, no momento seguinte lembra mais um gatinho brincalhão.

O país com vocação para a alegria tem visto copiados em seu cotidiano os crimes seriais americanos. Pronto, já copiamos o mundo civilizado. No que é pior. No Rio de Janeiro, em Goiás, temos horror diário para encher os jornais e as redes sociais.

De Brasília, pouco a dizer sobre o mesmo. Segue igual, apenas com novos protagonistas. Lula é o perseguido de sempre, Dilma o foi até cair, e agora Temer faz jogo aberto de sua rendição moral para se manter no poder. É… O poder corrompe, o poder político corrompe muito mais, já dizia Gabriel Garcia Marques. Os apanhados em flagrante não se envergonham do malfeito, mas sim de que tenha vindo à tona. Como disse Marcelo Odebrecht, antes de (espera-se) cair em si na prisão, tinha mais nojo de quem delatava o crime do que do que do bandido que o cometia. Já deve mesmo ter percebido seu engano. Nadará mais levemente em sua piscina, ao deixar o cárcere. E tomara que assim ensine seus filhos, para mudar a história de seu futuro, já que não se apaga o passado.

Um Brasil tão grande, tão vasto para conter um só país. 118 crianças encontradas na longínqua Roraima sendo abusadas com trabalho infantil. Ao tempo em que o presidente aliviava as penalidades para o trabalho escravo; pudera – apanhado em flagrante delito e já com duas denúncias, ‘armou’ com seus cúmplices de partidos amigos para serem adiadas até o fim de 2018. Quem sabe onde irão parar até lá? Mas o importante era deter a denúncia; as crianças maltratadas e escravizadas em sua infância roubada estão longe de seus olhos, de sua vida e de sua responsabilidade como dirigente responsável pelos cidadãos brasileiros, pensa ele. Mas não é esta a função presidencial? Trabalhar para que os seus cidadãos, que o custeiam in totum, tenham uma vida digna? Todo o Senado, todo o Congresso está contaminado, a maioria investigada e buscando uma saída para se manter no Poder.

O país sangra com a prostituição barata de nossos líderes, com a fraqueza do Supremo (???) Tribunal Federal, vaidoso, arrogante e exibicionista, mas aquém de seus deveres, leviano em decisões que o brasileiro aguardava com alguma esperança. Disseram, mutatis mutandi, como Dante, ‘na Divina Comédia’: Vós, que escutais nossas decisões floreadas e televisivas, deixai para trás toda a esperança.

Não devemos. Nossa função é lutar por melhor sorte para nossos filhos e netos. A marcha de 2013 foi um marco em nossa história. Logo os black blocks, infiltrados nas passeatas por políticos que temem a mudança de um país para uma situação de normalidade que não lhes interessa, trouxeram a violência para as passeatas e afastaram a multidão – trouxeram de volta o marasmo. A indignação ainda segue adormecida. Mas basta conversar com as pessoas nas ruas e ônibus e táxis, e ver que estão todas a ponto de explodir. E quando isto acontecer, não haverá carro blindado que proteja corruptos, nem blindagem no Congresso que impeça a Justiça de acontecer.

Já temos quase quatro anos de Lava-Jato. A Sergio Moro já outros juízes se juntaram; a tarefa de dedetizar, de sanear a política e o empresariado é hercúlea, mas segue sua trilha. É um longo caminho, e como não é o mais fácil, fará toda a diferença. Mais ou menos isso disse o poeta Robert Frost.

A cidade sangra, o país sangra, o mundo sangra. O sangue que mancha o mundo já ressoa bem perto de nós. A violência que ultrapassa o justo, a moral e a dignidade se dissemina como praga. A sangria apenas cessará com a faxina dos corruptos, onde quer que se encontrem, a atitude corajosa, eficiente e corajosa do Judiciário e uma Educação honesta, que ensine o povo apensar e a enxergar o mundo à sua volta com olhos abertos e lúcidos.

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