Se eu me esquecer de ti, ó Jerusalém… *

A primeira vez que te vi, do alto do Monte Scopus, no caminho de sua universidade, você estava envolta por nuvens. Mas, mesmo assim, me emocionei recitando o Shehianu, Vekimanu Ve Higianu lazman Azé! Era a realização de um sonho, de uma promessa que fazia a cada ano, no fim dos meus jejuns de Iom Kipur.

No dia seguinte, em meio à neve que se derretia, fui ao Kotel Hamaaravi. Lembro, até hoje, e lá se vão uns trinta anos, da roupa que vestia. Tinha reservado uma saia de lã, de cor roxa pregueada, para essa ocasião tão especial. Mas o frio era tanto, que tive que ir com uma calça comprida por baixo e um casacão por cima, além de uma pashmina (que, na época se chamava xale), que cobria a cabeça e parte do meu rosto.

A sensação que tive foi de encantamento. Até uma nesga de sol se fez presente para marcar aquele momento mágico. Fui colocando naquele muro úmido e escorregadio os nomes das pessoas de minha família. Não preciso dizer que os pedaços de papel se desmancharam, assim que encontrei uma brecha para que fossem depositados. Recitei um Salmo, agarrada àquelas pedras, com toda a cavaná, que a ocasião merecia.

De lá para cá, fui te visitar muitas vezes. Em tempos de paz e de menos paz. Nesse ano mesmo, encontrei o Kotel resplandecente num Shabat de muito sol. Assim como te vi, Jerusalém, solene nas noites de celebração de Iom Hashoá, Iom Hazikaron e Iom Haatzmaut. Estava todo mundo oficial, autoridades israelenses e estrangeiras, na capital eterna de Israel. Cantar o Hatikva em teus domínios é tocar o céu.

Não importa que só agora você foi reconhecida como capital pela maior potência da terra. E que o mundo esteja esperneando contra essa decisão. Para nós, judeus, você sempre representou o nosso centro, o âmago da nossa religiosidade. O rei David e o Rei Salomon te prepararam, para que você fosse a fiel depositária do Mishkan, construído no deserto, seguindo as orientações do Criador.

Estamos sempre voltados para você, na hora das nossas preces. Você é citada mais de 600 vezes na Torá. Falando de fatos terrenos, não me esqueço dos rostos daqueles soldados, que chegaram ao Muro, na tua reconquista, em 1967.

A cada ano perto de ti, um novo olhar, uma nova vivência, emoções a flor da pele. Nas ruas e vielas, com os seus prédios de pedra, o novo e o velho se misturam. As tuas ladeiras, cercadas de árvores, abrem os caminhos para as Ieshivot e Midrachot de todas as tendências, sinagogas, shoppings, grandes hotéis, museus, entre os melhores do mundo. Você, com a tua população multicolorida, não é tão cosmopolita como Tel Aviv ou Haifa. Você é você. Diferente de todas.

Você vive perigosamente, devido à tua vizinhança e por que você abriga o mundo oficial de Israel. Afinal, na criação do Estado, você foi declarada a sua capital. Mas toda a tensão que você vive, acirrada pela ingerência de vizinhos nada amistosos, se desmancha no Shabat que, dentro de teus domínios, tem outro gosto, outro aroma e até outro ritmo. A mechaié! ( Uma maravilha!)

Essa mesma sensação de alívio e paz é compartilhada por todos os teus visitantes, quando se avista o teu horizonte, a partir da varanda de saída do Museu Yad Vashem, construído em memória dos heróis e mártires do Holocausto.

Em cada um de nós nasce uma centelha de esperança de que mais do que cantada como cidade de ouro, você vai ser, para a eternidade, a irradiadora da profecia de Yeshayahu: “E o lobo deitará com o cordeiro”. (CAP 11:6).

Chag Chanucá Sameach para você e para todo o mundo!

*Adaptado de um texto do livro de minha autoria “O Quadro Sem Moldura” (2016).

 

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