Seja feliz!

Fui almoçar com uma amiga e marcamos um pouco mais cedo, do que de costume, pois ela tinha um compromisso logo depois do nosso encontro. Assim, meio dia e meia chegamos ao restaurante, que ainda estava vazio.

Os garçons, animadamente, nos receberam e deixaram que escolhessemos a mesa, uma vez que, inocentemente, acharam que sairíamos antes da hora do pico do almoço.

Escolhemos o prato do dia e começamos a conversar. Os assuntos eram muitos, pois tanto ela como eu tínhamos novidades.

A comida chegou: pene com abobrinha e queijo de buffala.

-Faço esse prato brincando – comentei no auge de minha recente descoberta no mundo da culinária.

Começamos a trocar receitas e em seguida ela me confidenciou que terá que voltar a cozinhar, pois sua secretária irá embora, após 30 anos de bons serviços prestados.

-Não me diga! – Falei admirada.

Ela então contou que o motivo era a violência no Rio etc e tal e que a secretaria iria vender a casa na comunidade onde mora, vizinha à favela da Rocinha, por um valor abaixo de mercado.

– A casa estava avaliada em 200 mil, mas ela encontrou um comprador que pagará, à vista, 70 mil.

-Um bom negócio!

-Para o comprador? – Perguntou

-Não para ela. Quem vai querer morar num lugar que tem tiro em todas as direções?

-É verdade – concordou.

O garçom se aproximou e perguntou se queríamos mais alguma coisa.

Perguntamos se tínhamos direito à sobremesa, no que tivemos um “sim” como resposta.

-Qual é a sobremesa? – perguntei animada.

-Mamão .

-Mamão? Fruta?

-Sim, senhora.

-Ah, não! Mamão eu como no café da manhã.

-Não pode ser outra coisa? – perguntei, tentando negociar.

Ele saiu poor alguns minutos e voltou com a boa notícia:

-O chef autorizou, também, o pavê de maracujá.

Apesar do açucar, ficamos com o doce e pulamos para os temas: academia, ginástica, dietas e cirurgias bariátricas .

Degustamos a sobremesa e o telefone de minha amiga tocou. Era o marido avisando que o compromisso que teria após o almoço havia sido cancelado.

Com o horário livre, demos prosseguimento a mais uma rodada de papo furado, que percorreu pelos mais diversos temas até percebemos que o restaurante, agora, já estava bem mais cheio e que o garçom só faltava tirar a toalha da nossa mesa, porque o resto, já tinha tirado.

Não dando certo a primeira estratégia, partiu para um golpe mais baixo e como eu estava sentada na frente de uma adega, de minuto a minuto, ele ia até lá, abrir a porta e pegar alguma coisa.

-Que lugar estranho para colocar uma adega, comentei ironicamente com minha amiga em alto e bom som, mas ele nem olhou na minha direção.

-Acho que está na hora de ir – comentei.

Mas a adega deu origem a uma outra lembrança e continuamos sentadas, tagarelando até uma nova visita do garçom até a nossa mesa.

-As senhoras querem um café?

-É, um café parece uma boa ideia.

Mais meia hora de conversa e de novo o cerco do garçom.

Olhei em volta para ver se havia fila de espera, mas não tinha ninguém esperando por nossa mesa.

Então, por quê ele queria nos tirar dali?

Assim que ele se aproximou pela “milionésima” vez, não aguentei e perguntei:

-Esta mesa está reservada para algum cliente?

-Não exatamente, senhora.

-Como assim? Está ou não está?

Meio sem jeito, ele desabafou:

-Na verdade, essa mesa é reservada para o dono do restaurante e ele só almoça aqui.
Olhei em volta e procurei alguém que tivesse  cara de dono de restaurante. Acabei avistando um senhor com aproximadamente cinquenta e poucos anos e perguntei ao garçom se era ele.

-Sim! É o próprio.

O sujeito olhava meio de lado, bastante sério. Resolvemos então pedir a conta, pois ficamos com pena do garçom que já não sabia mais o que fazer, se agradar o chefe ou às clientes tagarelas.
Ao levantarmos, passamos pelo dono do restaurante e não resisti:

-Pronto, agora você já pode almoçar.

Ele me olhou surpreso e deu um sorriso meio sem graça.

-Agora você vê, enquanto todos os restaurantes fazem de tudo para atrair clientes, esse cara faz cara feia porque sentamos na mesa preferida dele – comentou minha amiga.

-Pois é, ele deve ser uma pessoa de mal com a vida.

-É verdade. As pessoas estão muito estranhas ultimamente,

-Falta alegria.

-Se eu tivesse um blog eu falaria sobre isso.

-Sobre o dono do restaurante?

-Não, sobre felicidade.

-E por que você não faz?

-Porque ninguém me seguiria.

-Eu te sigo!

-Obrigada! Mas o meu neto tem um blog que fala sobre dinossauros e é uma dificuldade para ganhar seguidores.

-Se o tema for bom, fica mais fácil.

-Seja feliz!

-Obrigada! Você também!

-O tema do blog.

-Ahn?

-Seja feliz será o tema do meu blog.

-Bem sugestivo!

Nos despedimos e a ideia ficou no ar…

 

 

Um comentário

  1. Eva Britz
    Eva Britz 4 de dezembro de 2017 at 21:50 |

    Este blog teria muitos seguidores…inclusive eu !

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