Shakespeare é show

Acompanhando a crise olímpica, as barras de ouro encontradas na Suíça e outros malfeitos que jamais deveriam ter ocorrido, é surpreendente ler que sim, foi confirmado existirem as tais barras, mas a Suíça não informa o montante delas nem o banco no qual foram depositadas. O que se esconde por trás de notícia vaga assim? Precisamos saber quantas barras de ouro exatamente foram adquiridas com dinheiro sujo, para que possam ser devolvidas aos cofres públicos e usadas em benefício do povo, mais uma vez e sempre vilipendiado.

Buscando alguma coerência nos arranjos feitos para livrar a cara de Temer e de outros poderosos corruptos, lemos uma frase do relator da segunda denúncia contra o presidente, ninguém menos do que o descendente do patriarca José Bonifácio de Andrada, na qual ele se queixa de que ‘a presidência não é tratada com a devida deferência que o cargo requer’. Na verdade, a frase correta seria ‘a presidência não trata o cargo com a devida deferência que este cargo requer’. Mas, no Brasil de hoje, com a inversão de valores morais e éticos a galope solto, nossos políticos articulam o vernáculo como bem lhes apraz no momento. De fato, diante da frase, percebe-se que nem o relator nem o presidente tratam seus cargos com a deferência que estes (cargos) merecem e requerem’.

Alinhavando a vergonha de nossos tribunais, sabemos que o ministro Admar Gonzaga, do TSE – aquele cuja mulher apresentou boletim de ocorrência contra ele numa delegacia da capital, alegando ter sido agredida pelo marido – apareceu no jornal em foto com a face marcada por arranhões, segundo ele, causados pela mulher, que bebera mais do que o devido. O olho roxo que ela apresentou na época deu-se devido a uma queda da senhora bêbada, após ter escorregado no enxaguante bucal e bater com o rosto na banheira. Então, a mulher o teria agredido porque descobrira uma doença, e louca de ciúmes, bebera mais do que o aconselhável e unhou o ministro, que teria apenas se defendido do ataque, empurrando-a com os olhos fechados após os arranhões e ocasionando a queda da mulher. O ministro ainda contesta a enteada, mas a compreende, já que sua reação tem ligação com a mãe nervosa e ferida. Tudo muito estranho, mal explicado, porém o foro privilegiado garante que continue do mesmo jeito. E nos resta repetir a frase já dita acima: ‘Ministros devem tratar seu cargo com a devida deferência que o mesmo requer’.

Há 400 anos, Shakespeare já havia escrito peças que permanecem atuais e servem para ilustrar muitos dos problemas sociais, econômicos, políticos, morais e outros que enfrentamos.

Ao ler ‘Ele, Shakespeare, visto por nós, os advogados’, os muitos ensaios ali compilados confirmam a atualidade do bardo inglês.

Por exemplo, no trabalho de Miguel Reale Júnior, o autor cita Hannah Arendt, que escreveu: ‘Eichmann alegava que sua culpa provinha de sua obediência e a obediência é louvada como virtude’. Rodrigo Loures carregou uma mala recheada de dinheiro pela rua, em passos saltitantes até um táxi, porque era homem de total confiança do presidente e lhe devia obediência completa. Uma virtude sua? Conforme diz o jurista, ‘em nome da obediência, um cumpridor de ordens substitui a capacidade de distinguir o bem do mal por uma obtusa apatia’. Sua culpa é então afastada? Ou marca sempre e com mais força a conivência com o crime? A ver no que dará a estapafúrdia cena.

No ensaio de Tercio Sampaio Ferraz Junior, que aborda ‘Ricardo II’, aprende-se mais um pouco sobre a ‘rei imago Dei’, como se julgavam os reis de então – e alguns políticos de hoje. Pouco a pouco, com o desenrolar da peça, os personagens shakespearianos encontram em si mesmo a origem do mal que os afligem. Ou, com os olhos em nossos tempos, se é que o conseguem… afirma o autor. Incrível como os temas de então cabem tão bem em nossos políticos atuais. Basta pensar, e para pensar servem os livros, a Educação e a Cultura.

Mais adiante, no mesmo ensaio, ainda sobre ‘Ricardo II’, sabemos que este foi deposto por seu primo, Bolingbroke. Neste caso de usurpação válida, Shakespeare explica, o autor ratifica, e para bom entendedor fica claro, que ‘se tratava da incompetência do monarca deposto, sua desmedida noção de privilégio e sua clamorosa irresponsabilidade… Sem comentários! ‘Elucida o ensaísta.

Shakespeare viveu numa época de prosperidade na Inglaterra, que gerava recursos para atividades culturais, e em época de educação, que gerava autores e um público interessado. De novo e sempre, a Educação serve como fator vital para o enriquecimento cultural de um povo. Há muito mais a ser encontrado neste livro delicioso e tão necessário, que deixo aos leitores.

Não falaremos sobre a votação do STF, cuja decisão envolvendo Aécio Neves diminuiu, a meu ver, a mais alta Corte do país. Aconselhemos, sim, alguns ministros a lerem ‘Júlio César’, de Shakespeare, e prestarem atenção no tom de soberba, na arrogância, presunção, desdém e desprezo pelo outro. O fim de Júlio César é conhecido, e nada agradável. E, de novo, ‘o cargo no STF requer a devida deferência, que alguns ministros insistem, com seu mau comportamento, acima detalhado, em negar’.

Em dias de festival do Rio, assisti a um filme chamado ‘Menashe’, sobre judeus chassídicos do Brooklyn. Para minha surpresa, o filme é todo falado em ídiche, com legendas em inglês e em português. Não vai entrar em cartaz, daí minha alegria em ter a chance de assistir a uma obra diferenciada. E teve ‘The Leisure Seeker’, com Donald Sutherland numa belíssima interpretação. Woody Allen não consegui ver, a organização foi confusa, mas entrará em cartaz, com certeza. Não perderei, como sempre.

No mais, é torcer para que a Segurança volte a esta cidade com tanta vocação para o turismo. E para que nossos políticos bandidos encontrem logo a cela que merecem. E para que nossa Saúde funcione a contento. E para que o governador pague a todos os servidores que deve. E para que Cabral seja punido por todos os seus crimes. E para que Crivella trabalhe como deve. E para que a vida volte ao normal para nossas crianças. Enquanto aguardamos as ansiadas mudanças, leiamos muito, e muito Shakespeare, pois ele é show.

Um comentário

  1. chaia zisman
    chaia zisman 23 de outubro de 2017 at 12:47 |

    Parabéns Miriam pelo texto lúcido, recheado de cultura. Mais uma vez fica comprovado que o tempo passa e a natureza dos homens não muda. Veja-se o fim do Estado Judaico, após a morte do rei Salomão devido a descendentes incompetentes e corruptos. Abçs
    Chaia Zisman

    Responda este comentário

Comente