Sobre festas e funerais


No sábado, 5 de agosto, ‘Eugênia’ se apresentou no teatro Serrador, parte da ‘Mostra de Solos’ que acontece naquele teatro. Teatro cheio, gente rindo e se divertindo, momentos de descontração para um bom pedaço da população desta cidade – e deste país – desolado com a política e tudo que ela implica. Uma festa da Cultura, em tempos áridos e de crise – como nunca antes vista.

Também muito positivo e instrutivo o filme ‘Eva não dorme’, sobre o desaparecimento do corpo de Evita Peron, o mito venerado, alucinado, a idolatria em torno daquela mulher de origem simples que foi a primeira-dama da Argentina e morreu aos 33 anos, odiada pelos militares e cujo sumiço e retorno do cadáver seguem envoltos em mistério (note-se que, ao retornar a Buenos Aires, o caixão chegou fechado e assim foi levado ao Palácio do Governo, de onde, rainha, Eva – ou o que estivesse dentro do ataúde, seguiu para o cemitério).

Criar mitos é próprio e usual onde se descobre manca a Educação. O populismo atraiu em torno de Evita os descamisados, os mais simples, os sem-teto, os abandonados pelo próprio governo, mas sempre enganados com discursos anticapitalistas e de ódio aos ‘inimigos’ do povo. Pouco importa que ela tenha sido perdulária e gasto milhões em joias e roupas e peles. Uma das características do mito é cegar os que o colocam no altar.

Será um altar para si o que deseja Lula, diante de tantas investigações e denúncias e a já constatada primeira condenação? E o que pretende Gleisi Hoffmann, nova chefe do PT, ela também investigada, ao apoiar Nicolau Maduro tão abertamente? Confessar o plano de Poder que nos enterraria a democracia e transformaria em uma Venezuela?

Para Bibi, em Israel, a coisa também não é festa. Mas em Israel são passíveis de prisão tanto um primeiro-ministro quanto um presidente – como já vimos na prática. A lei é para todos. Como deve ser. Se Netanyahu deve, pague. Para o judeu, é pecado imperdoável cair em corrupção, e o julgamento de um irmão de fé que falha nesse aspecto é tão mais severo quanto maior for seu Poder político. A História o comprova.

E a tribo do sul da China onde as mulheres são donas da casa, do dinheiro e escolhem seus parceiros? O lugar é bem longe da ‘dita’ civilização, fica perto do Tibet; ali há uma sociedade matriarcal, cujas filhas são a alegria da família, pois são elas quem lhe darão a continuidade. A figura da avó, que na sociedade ocidental se começa a valorizar, na tribo dos Mosuo é de valor primordial, e é seu sobrenome que se perpetua nas gerações. Ao morrer uma avó, as novas são escolhidas por meritocracia. Perfeito. E passam o comando para a filha mais inteligente e capaz, mesmo que não seja a primogênita. Meritocracia é palavra que nos soa rara, pois por aqui não se discute sua real importância, daí a razão principal de nosso atraso. O povoado tem 40.000 membros, agricultura de subsistência e as mulheres, consideradas puras, são mantidas sem contato com a morte. No que me parece lógico, pois mulheres lidam com vida, enquanto os homens, seres belicosos por natureza, fazem guerra e dão cabo da vida – entre nós, é claro.

Embora Mosuo esteja em perigo de mudança, devido ao turismo e hábitos ocidentais que por ali avançam com os estrangeiros que o visitam, há muito o que se aprender com esta Cultura, e espero que assim aconteça, pois só nos elevaria em termos humanidade.

E como a vida é múltipla, após a festa do teatro veio a tristeza da perda. Na manhã de domingo, 6 de agosto, foi dia de prestar a última homenagem a uma colega do Museu Judaico, que partiu para sempre. Raquel Niskier já passava dos 80 anos, teve uma vida plena e feliz, a julgar pela multidão que esteve na capela. Há pouco tempo nos reunimos numa reunião da diretoria do Museu Judaico, onde ambas somos diretoras voluntárias. Não sabíamos que era uma despedida. Compartilhamos sua generosidade habitual, seu sorriso perene e a disposição de ajudar e aprender, que eram uma marca constante, ao lado da doçura do olhar, constante aprovação em prol do Museu. Ela sempre se dizia contente e surpresa com o livro que produzira com Ana Antabi, outra colega do mesmo grupo. Com candura, confessou que não imaginava que jamais produziria um. Produziu. Um bom livro. Deixou sua marca. Uma bela marca, de mulher gentil, inteligente, solidária, uma perfeita mentsch. De algum modo, sempre estará conosco. Ainda assim, fará falta.

O que não nos faz falta, ao contrário, já nos deixa mais do que fartos, é toda essa corrupção. O mercado da pouca vergonha em que se transformou o Congresso é de enojar. Do Judiciário, tampouco se escapa do mal-estar. Quem assistiu ao advogado idoso e exasperado na tribuna, porque um desembargador lhe havia pedido R$70.000,00 para acatar seu pedido poderia pensar tratar-se de criação das mídias sociais. Mas, na manhã seguinte, o jornal repetia foto e notícia, com pormenores degradantes sobre o magistrado mencionado. E também lemos sobre aquele ministro do TSE, amigo do Temer, escolhido a dedo para um julgamento em que o presidente era o protagonista. Pois a mulher do julgador apareceu com olho roxo dias depois, deu queixa contra o marido e depois a retirou. Agora, a mesma esposa diz que está sendo monitorada. O marido colocou detetive em sua cola, não explicando a razão. Uma certeza temos: não há compostura digna do Judiciário naquela casa. O ministro do STF, Luis Roberto Barroso, disse, com todas as letras, que estão tentando abafar a Lava-Jato. Torcemos para que não haja disputas entre o MP e a PF, e que ajam visando o mesmo objetivo; o povo está, sim, esgotado e desesperançado, mas, ainda assim, eu duvido que permita o funeral da Lava-Jato. A Lava-Jato é uma festa da democracia, e deve atingir todos os envolvidos nesta que é a maior roubalheira jamais perpetrada contra um país. A tal da Nunca antes…

Não passarão, não passarão, não passarão. E como eu creio na Educação e apenas nela para mudar o homem e com ele o mundo, vale citar Walter Benjamim, cuja biografia acabo de ler e recomendo: ‘A porta da Justiça é o estudo’, ensina ele. Estudo, livro, educação. Não há festa melhor para o ser humano. Sem tais ingredientes, sobra bestialidade. E o funeral da humanidade.

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