Sonhos de dezembro

Em dezembro a padaria da esquina de casa vendia pão de milho, pão italiano, pão de centeio, bolo de laranja, pão para rabanada, e sonhos. Sonhos dos grandes. Recheados com creme, muito creme, bastante açúcar, desses que vão se misturando à massa, por cima, como cobertura para o acabamento pulverizado.

Eu me aproximava do balcão e esperava o carregamento de sonhos frescos, recém-saídos do forno e inspecionados pelo confeiteiro, que trazia os doces organizados, distribuídos em tabuleiro arranhado, gasto, dando a entender que por ali já haviam passado um sem número de sonhos. Décadas de sonhos. Nunca vi uniforme tão branco como o dele. O homem carregado de sonhos.

Embora desejasse arrematar todo aquele tabuleiro, eu comprava apenas a quantidade suficiente. Nada de exageros. Pensava nos sonhos com moderação, para não enjoar. Eu queria os sonhos de dezembro na medida para o ano inteiro. O suficiente para fechar os olhos, abocanhar, ir mastigando bem devagar, aquela delícia se desmanchando; sentir o recheio misturado à massa, como se fossem uma só: porque nos sonhos de Hanuká, em dezembro, tudo parece verdadeiro e se mistura mesmo.

 

Comente