Tempo de lamentações


Daqui a nove dias, o povo judeu viverá, nas sinagogas, o luto coletivo pela passagem do “Tishá b’Av”. Nessa data, lamentamos a destruição do primeiro e segundo templos, erguidos na capital eterna de Israel.

Nos tempos bíblicos, a geração do Êxodo foi condenada a morrer no deserto, por ter aceito o relato dos espiões, condenando a Terra Prometida, realizado nesse dia. Choramos também, no nono dia de Av, a derrota de Bar Kochba contra o império romano. Lembramos que, nessa data, os judeus foram expulsos da Inglaterra em 1290 e da Espanha em 1492. E foi em Tishá b’Av, também, que Himmler, um dos chefes nazistas, aprovou o Die Endlösung –  “Solução Final” -, ou seja, o   plano de extermínio total dos judeus da Europa.

E foi muito perto desse “Tishá b’Av”, que o Estado de Israel assistiu a mais um brutal assassinato de três membros de uma família, na sua celebração de Shabat. Nunca foi revelada uma imagem de tamanho banho de sangue de inocentes, como dessa vez. Mesmo assim, as lentes e os microfones da imprensa internacional se focaram na “absurda” decisão do governo israelense de aumentar a segurança em torno do Monte do Templo, a fim de coibir atentados, como o perpetrado na semana que passou, que matou dois soldados drusos israelenses.

Até quando? E por quê?

Nas palavras do Rav Jonathan Sacks, os judeus, em toda a sua história, se negaram a compactuar com governos tirânicos, se insurgindo contra intimidações com o uso da força, de ameaças, de terror e perseguições.

Tishá b’Av é o dia de Jó e de Jerusalém. Por um lado, é a data mais difícil do calendário judaico. Por outro, celebra a imortalidade do povo judeu. Contém uma centelha sutil, mas muito poderosa: a constatação de que sobrevivemos aos egípcios, assírios, babilônios, romanos; aos inquisidores, aos nazistas e a todos aqueles que lutaram, em vão, contra a eternidade dos filhos de Israel.

Não foi por acaso, que numa região belicosa como a do Oriente Médio, nos tempos contemporâneos, os judeus foram capazes de criar uma sociedade livre e ordenada, garantida pela liberdade de imprensa, eleições democráticas e um judiciário independente. Ademais, o seu progresso reflete a convivência com a inovação constante nos campos das artes, ciências e tecnologia.

Israel, como qualquer estado não é perfeito. Mas está tentando realizar o que foi um desafio para os judeus, desde os tempos de Abraham e Moisés: criar liberdade sem anarquia e ordem sem tirania. Ao contrário das lideranças à sua volta, que pregam o ódio e o caos para as suas populações. E se tal postura coloca Israel na linha de frente das decisões da ONU, nada a lamentar.

Assim, se mais uma vez vamos derramar lágrimas em Tishá b’Av, vamos, pelo menos agradecer a Deus pela coragem e a bravura do povo de Israel. Por saber o que sabemos da história, nós preferimos ter o Estado de Israel e a condenação injusta da comunidade mundial, do que não ter o Estado de Israel e contar com a solidariedade do mundo.

Na última frase de Eicha (Livro das Lamentações), um pedido válido para os nossos tempos.

“Retorna-nos a Você, Deus, e retornaremos, renove nossos dias como os de outrora”. E que o vale de lágrimas, enfim, amanheça seco, digo eu.  Amém!

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