Tempos difíceis

Tempos difíceis os que vivemos. Para quem esperava um século XXI desenvolvido, a onda retrógrada é como se estivéssemos voltando ao século XIX em vez de avançar para o XXI.

Brasília segue nos surpreendendo a cada dia. Que nada, a cada hora, a cada minuto. Moralidade já passa longe das fronteiras da capital, onde o balcão de negócios é explícito e completamente desvairado.

O falido Rio de Janeiro ainda precisa ver o prefeito Crivella criar um dia que celebra a cidade onde nasceu a Igreja Pentecostal, o Dia de Avivamento da Rua Azusa, ou coisa que o valha. Nada disso importaria, se o resto funcionasse. Mas o prefeito falha no básico, usa a prefeitura para firmar-se como pastor, e o povo, mais uma vez, sente-se enganado por seus políticos. Sem falar na Cultura, que parece ser odiada por esse governo. Não sabem que ela mede o tamanho de um povo, e sua ausência apressa o desaparecimento de qualquer civilização?

Precisamos voltar aos trilhos do desenvolvimento, e logo.

O brasileiro é mesmo um povo bom, governado por bandidos e/ou medíocres. Que dizer da solidariedade demonstrada pelos passageiros de um ônibus diante de uma jovem grávida que vende café num ponto de ônibus? Pois não se comoveram e lhe fizeram um chá de bebê em pleno ônibus, decorado com flores, com direito a bolo, doces e salgadinhos? A moça ganhou muitas fraldas e roupinhas de bebê – um gesto de humanidade espontâneo de cidadão para cidadão. E aí a gente imagina como seria o país se, além da gentileza do povo, as instituições funcionassem com eficiência e dignidade.

Lendo que o juiz Sergio Moro se disse cansado, a gente se pregunta até quando ele aguentará a pressão enorme que sofre por parte das centenas de investigados que ‘venderiam a mãe’ para obstruir o funcionamento da Justiça que lhes morde os calcanhares.

Ainda bem que há o pessoal do ônibus humanitário, um livro de Amós Oz para aliviar a raiva. ‘O monte do mau conselho’ é mais uma pérola do grande escritor israelense.

Lendo sobre o suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, lembrei-me de uma palestra sobre vergonha, ofensa e humilhação. Coisas que não vemos em nossos políticos. Talvez o reitor que se matou tivesse algo de japonês, pois este é um povo que põe fim à vida diante de uma vergonha que não consegue superar. Em Brasília, tais sentimentos inexistem. Nada consegue ofender políticos do Congresso nada os humilha, nada os envergonha. Pensam-se acima do bem e do mal? Ou simplesmente cultivam a amoralidade, desconhecendo totalmente seu significado? E se inflamam quando seus malfeitos surgem em sua prole, como se outro resultado fosse possível diante de seus exemplos.

Quem não viu o senhor Geddel Viana chorar em público, alegando que por seu filho prezava seu bom nome? Mentira, cinismo, hipocrisia. Seguiu reincidindo no crime e voltou à cadeia, lugar ao qual pertence, ele e outros na fila de espera.

Melhor ler Amós Oz, e agora começar a me deliciar com ‘ Ele, Shakespeare, visto por nós, os advogados’. William Shakespeare sempre encanta, e já saboreio de antemão os ensaios que ali me aguardam. Para enfrentar tempos difíceis, em que crimes bárbaros são perpetrados na cidade sem lei ou segurança, é preciso cultivar a Cultura. Só ela, e muita Educação, podem nos salvar e mudar o futuro.

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