Vida com arte

eugenia

Nossa vida política segue igual. Inflação, luta de economistas competentes para sanear um pouco o maxi estrago feito pela corrupção longa e desmedida. Hospitais e escolas seguem longe da realidade necessária para um funcionamento a contento. A megalomania dos políticos não muda, o cidadão não conta. É uma indignação sem fim que atordoa os brasileiros em seu país doente. Exigimos a cura. O mundo todo, aliás, está doente, acometido de terrorismo crônico. E a gente se pergunta em que ponto os desmandos de governantes insensíveis e tirânicos perderam a noção do que acontecia ao seu redor e não perceberam que milhões de pessoas deixavam de ser civilizadas para se tornarem animais selvagens, nus. Longe da educação, da cultura e da dignidade, o que resta é o que temos hoje, por aqui e mundo afora – salvo poucas exceções. Por isso, escolhi falar de teatro, paixão que teve em ‘Eugênia’ um trabalho de simbiose e vem recebendo aplausos há quatro temporadas. Desta vez, escolhi prestigiar o texto que o figurinista, uma pessoa deslumbrante, culta e muito especial fez para o livro da peça, e que mostra como é essencial o teatro estudado e pesquisado. Com vocês, Samuel Abrantes, PHD, e  um pedaço de seu estudo sobre ‘Eugênia’.

Eugênia, amante do príncipe D. João VI, volta do mundo dos mortos, disposta a rasurar a versão oficial da história. Ela emerge do túmulo desdobrando-se em personas, flutuando, múltipla; transita entre a senzala e a casa-grande, entre a colônia e a corte. A personagem destila com muito charme e uma pitada de mundanismo, as suas memórias póstumas. O leque de possibilidades identitárias apresentado pelo texto sobre a virada do século XVIII para o século XIX, produz uma série de indagações e questionamentos do cotidiano desta personagem, que vivenciou as transformações decorrentes de muitos elementos contingenciais. O texto reafirma o interesse da autora pela reconstituição histórica e o registro crítico do olhar feminino sobre as transformações do mundo. ‘Eugênia’ especula sobre a inserção do feminino na sociedade e, em vários fragmentos de sua fala, evoca não apenas sua trajetória, mas dialoga com as inúmeras mulheres “expostas” na cena. O texto impõe, com certa ironia, uma reflexão sobre os valores que subsistiam no Brasil e em Portugal, em termos de inconformismo, de mobilização e de crítica social. Eugênia afirma que “está morta e está ótima” e “vaga” diante dos leitores expondo com olhar apaixonado os subterrâneos e as nuances históricas evocadas pelo texto.

 A emergência de sentido, justificada por um refinamento no uso da palavra, resulta no sentido de pertencimento, de apropriação do feminino, que subsidiam as narrativas “em trânsito” na leitura de Eugênia. O texto conjuga o sensível e o inteligível em material dramatúrgico. Constrói um imaginário sociocultural que legitima sua realidade discursiva. Redesenha a figura feminina em suas inúmeras atividades. Referenda ícones que reafirmam sua procedência e reivindica, com sua leitura, um exercício singular de pensar o tempo agora, mais dinâmico que as esferas vividas por Eugênia. E, o que transborda desta leitura, transforma-se em sonho, em expressão artística e poesia.

SAMUEL ABRANTES, Figurinista Teatral,

Mestre em História da Arte; PHD em Semiologia, UFRJ.

Professor de Artes Cênicas, Escola de Belas Artes, EBA/UFRJ.

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